sexta-feira, 17 de setembro de 2010

trangressão (1)

Vou rasgar mais um pouco,
esse véu branco que nos prende:
Aqui entre nós, não existe barreira,
não existe limite,
não existe livreto de boa conduta.
Nós é que escolhemos nossa postura!
Nem véu nem anel:
o que existe é uma porta aberta,
que não se fecha:
porque sabemos que nem todas as portas devem se fechar.
Pra sempre só existe se for agora,
e já aprendemos: contos de fadas não tem nada a ver com asas.
Casa é o que você tem aqui em mim,
e isso é tão concreto como ser.
Não é obrigação, sequer imposição,
mas sim uma fusão.
Entre eu e você atravessam mundos.
Mas você e eu, já somos um mundo.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

a des(construção)

É verdade sim
que eu te amo
te desejo
te sufoco
te provoco
te chamo.
Você me disse, senhorita, que eu podia entrar.
Pois então, entrei!
E nas minhas costas tem um caminhão de defeitinhos.
E nas minhas pernas vários machucados.
E nos meu pés um monte de bolhas.
Logo, fiz do meu chão,
uma profunda superfície tanto quanto instável.
Vez ou outra, cai um defeitinho no seu ombro,
a aparência dos machucados te assusta,
ou meu grito, quando a bolha estoura,
te irrita, e dá desgosto.
Vejo isso no teu rosto.
Só espero que esse meu lado torto
não faça de ti meu satélite,
que eu só observo de longe.
Espero que esse meu lado tosco,
não te aspire a tomar distância de mim.
Isso tudo, é só porque te encontrei ontem,
e ainda me é temeroso soltar-te completamente.
Talvez minha assinatura em sua corrente sanguínea,
ainda não tenha percorrido o corpo todo.
Mas saiba, minha lótus,
essa doença boba já está quase no fim.
É porque o parasita-desengano se hospedou em mim
por milhares de ventos.
Mais alguns diazinhos que eu sentir o teu alento,
essas coisas todas deixam de ser um tormento, viu?
E te deixo voar solta
livre do meu sofrimento.

domingo, 12 de setembro de 2010

você dentro de mim

Pra nós meu amor,
não existe passado.
Qualquer coisa que existisse foi antes terminado
dentro de mim.
Pra que eu pudesse estar vazia
e pudesse te seguir,
livre de qualquer dúvida
que teimasse em existir
dentro de mim.
Dentro de mim,
você ainda não entendeu, mas explico novamente:
qualquer coisa que atravesse nossa mente,
é coisa que pode ser criada dentro da gente.
A partir disso, um mundo nosso é conquistado,
entre cadernos, cantos, danças e qualquer estilhaço eventual da alma.
É que não há nada entre nós, que para nós
não possa existir.
Só peço-te que me estenda a mão,
pra que não pare
dentro de mim,
essa vontade louca de continuar a ir.
Eu e você juntas, somos uma trupe inteira de artistas,
será que você não vê,
que só basta que a gente persista?

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

a linha contínua do amor que temos

Quer saber de onde vim?
Quer saber o que eu trouxe de mim?
Tudo! Um punhado de histórias aqui dentro,
uma verdadeira rede de lamentos,
um atordoado coração em tormento,
e grandes saudades carregadas no pensamento.
Quer saber quantas pessoas passaram aqui?
Quer saber em quantas pessoas eu me construí?
Várias!
Vai me dizer que com você também não foi assim?
Aconteceu que você ultrapassou todos os limites,
chegou onde ninguém sequer pensou em me ser abrigo.
Aconteceu que seu impacto gigante no meu infinito,
sacudiu todas as partes do meu castelo particular,
e fez poeira de todas as histórias que teimavam em me orbitar.
O que houve foi algo idêntico a um terremoto,
que destruiu minhas máscaras,
demoliu minha casca,
e cessou meu luto.
O que houve, anjo,
é que fui tocada com suas digitais,
e as partes de meu corpo se fizeram tuas
e eu, de dura, seca e impura
me fiz diante de ti completamente nua,
de cara limpa lavada e excitada.
Diante de ti fui meu tudo e meu nada
incompleta e completa
perfeita e imperfeita.
Não importa qual a forma,
só sei que me nasci em você.
Agora, a casa que habito é o teu abraço,
de pés descalços,
peito, bunda e choro de criança perdida no espaço.
Olho no espelho e vejo teu contorno em meu rosto,
e todo o resto por ti já é envolto.
Qual um rio que não pede licença porque já sabe o caminho,
você se despejou, derreteu, jorrou, escorreu em minhas entranhas.
E não há mais entrada nem saída sem você.
Me tornei seu pertence, porque só assim
essa vida me convence
de que a linha contínua que nos une,
é muito maior que um passado glorioso.
E que se isso é de fato algo que dá gosto,
não há nada que nos possa ser imposto.