sexta-feira, 13 de agosto de 2010

conto um conto de desencanto

É, às vezes a gente troca os pés pelas mãos. Outras, na pressa em saciar nossos desejos, atropelamos os cavalos. Mas que ironia... pois sem os cavalos, não adianta carroça, não adianta pressa, não adianta mais nem a vontade. Certa vez, lembro-me de presenciar um fato dilacerante, talvez nem fosse pra tanto, mas eu paralisei, emudeci, e acho que morri um pouquinho – por compaixão ou qualquer coisa do tipo. Era uma criança. Linda! Daquelas crianças que te carregam pra outo lugar, bem secreto, dentro do nosso mundo particular. O ambiente favorecia minha percepção excessivamente sensível daquela pequena: o mar, a areia, as pessoas e as vontades mundanas esparramadas por entre as veias da quase insuportável convivência social. Foi aí que tudo começou. Lá vinha ela, uma menininha loira de olhos castanhos brilhantes, olhando o tanto de mundo que ela a poucos anos tivera a chance de ver e absorver. De repente, talvez pela primeira vez, ela sentiu o gosto amargo de viver: haviam muitas pessoas alegres, muitas crianças alegres, e muitas pareciam ter um pedacinho do céu debaixo dos pés com seus super skates e super patins. Não que ela aparentasse se importar tanto com certos bens materiais, não que ela necessariamente tivesse de sentir isso, mas naquele momento ela parou, o mundo parou. Só havia uma linha, quase como um feixe de raio potente fixado em uma outra criança, que até então só sabia do prazer em deslizar, flutuar em cima de seu skate, que a transformava numa super-heroína. Foi aí que ela sentiu o que era ser diferente, e mais, o que era ter diferente. Seus olhinhos hipnotizados, eram tão profundos que podiam ser emprestados à uma mulher de trinta anos acabando de entender sua solidão no mundo. Vendo isso me arrepiei, e coloquei meu foco nela. Seu corpo duro, imóvel, impávido. Por que eu não posso andar também? Eu sentia a incompreensão massacrante dentro dela. De súbito, ela correu e disse: 'Deixa eu andar um pouco?' E foi completamente ignorada. Sua incompreensão do mundo começava a cauterizar. Nesse momento ela soube menos ainda diante sua pequeneza de infante. Ali, eu vi que teus passos já não mais cresceriam leves. Mesmo sem ser autorizada, quando a outra desceu de seu altar para descansar um pouco, ela abriu um gigante sorriso e com toda vida que podia caber dentro dela, pôs os dois pés bem firmes no skate, talvez como Arthur, o rei, ao retirar sua espada da pedra. Eu vi, talvez ela só quisesse sentir, por um minuto que fosse, como era voar ali em cima. A outra criança, com sua herança de sentimento de poder no peito, empurrou meus olhinhos brilhantes, e ao fazer isso tropeçou caindo em cima da pequena, logo atrás uma bicicleta que não pode ser freada, beliscou um pedacinho de sua perna. Instaurou-se o caos completo. Resultado: mães em conflito, arranhões nas crianças, talvez uma perna fraturada, e o pior, o trauma de uma vida edificado, o endurecimento de um sorriso solto marcado e registrado na pele e na memória. Mas por que ela não pediu pra que a mãe alugasse ou comprasse um brinquedo daquele?? Eu pensei. Eu sim, mas ela não. Eu? Sangrei, ardi, me perdi e fugi! Mas deixei um pedaço morto de mim ali.

Um comentário:

André Srur disse...

Adorei. Sensível, sincero, bem escrito. Parabens.
Um beijo.