segunda-feira, 18 de maio de 2009

"Vou adiante de modo intuitivo e sem procurar uma idéia: sou orgânica." CLARICE LISPECTOR

E de repente, chega a hora da tormenta, quando corpo e alma entram em rebuliço. É uma vontade intensa de existir... será isso apenas sexo? Talvez não, é um desejo de me expandir, de me sentir organismo latente dentro do universo. Latente, expansão, intensidade... palavras que quando escritas, podem até remeter ao sexo, ao tesão, às práticas de sedução entre corpos. Mas quero ir mais além, penso em um ser dilatado no que ele próprio é, um ser dilatado em si: um organismo vivo, parte da natureza, parte do planeta terra, parte do universo. Nessas horas de tormenta – ou tensão, ou vibração, ou latência, etc. -, é quando o corpo e a alma querem deixar-se ir... querem sair da pasmaceira cotidiana de viver um dia após o outro dentro de nossas cidades, dentro de nossa civilização cheia de pudores e cristianismo. Parece que todo o potencial orgânico-humano que o ser humano pode ser, foi abafado, ‘higienizado’ pelas nossas ‘saudáveis práticas sociais’. O encontro com o outro ser humano é sempre um choque. Quando intensidades se encontram, é necessário olhar no livro de bons modos para saber como agir. Somos seres conscientes, e se criamos um pensamento lógico, racional, coercitivo... também somos capazes – e podemos – de expandir o foco, de aumentar as possibilidades de existência. Pensar a vida consciente de que sou uma pequena parte orgânica de todo um universo planetário é perder-me do tempo, é simplesmente ser, existir. É perigoso pensar e sentir que estrelas, a água, o vento, as montanhas, o sal do mar e a areia, uma árvore, a terra, a lua, o cristal que fica pendurado no meu pescoço são extensões do meu corpo, pois eu existo também na água, na chuva, na brisa que movimenta as folhas e as árvores. E eu, e você, somos tudo isso ao mesmo tempo, existimos juntos, somos partes de uma mesma coisa, estamos imersos na organicidade do que tem vida.
(...)
Mas as palavras, são meras tentativas fracassadas de tentar traduzir a completude do que sinto ser um ser vivo. Estas palavras não sabem ainda do calor do meu corpo intenso e ávido de vida, elas não sentem ainda a magnificência de ser viva. Mas são elas que tenho agora, sentada na cama durante a madrugada, me extasiando por saber-me de mim que viva sou, e que sou – somos – a extensão, a continuação, uma parte mais de tudo o que é vivo no universo...
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Amanhã é mais um dia comum – e aqui volto à contagem do tempo – vou me lembrar e me unir às outras partes de mim – com verdade – para que eu não enlouqueça de cotidiano ao extremo, para que esses encontros corriqueiros e superficiais com o outro, que nós nos acostumamos a chamar de vida, não me sufoquem por falta de vida, falta de ar, falta do orgânico.
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Como diria Clarice... momentos de graça existem.

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